CRM-SP 216995 · Mestre em Ciências pela USP · Atendimento médico em Pinheiros, São Paulo — região da Faria Lima

Estética responsável

Quando o preenchimento facial piora em vez de melhorar?

Preenchimento pode ser uma ferramenta útil, mas excesso, má indicação e expectativa irreal transformam técnica em problema.

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2. Quando o preenchimento facial piora em vez de melhorar?

Subtítulo: Preenchimento pode ser uma ferramenta útil, mas excesso, má indicação e expectativa irreal transformam técnica em problema.

Preenchimento facial não é vilão. O problema é tratar uma ferramenta médica como resposta automática para qualquer incômodo estético. Em alguns pacientes, o preenchimento melhora contorno, suporte, sombra e proporção. Em outros, pode piorar a aparência — principalmente quando é usado sem diagnóstico, em excesso ou em áreas de risco sem indicação clara.

A pergunta correta não é “preenchimento funciona?”. A pergunta correta é: “funciona para este caso, nesta quantidade, nesta camada, nesta região e com este objetivo?”.

Quando a técnica é útil

Preenchedores, especialmente os de ácido hialurônico, são usados em medicina estética para reposição ou modulação de volume, contorno e suporte. A literatura descreve que, em geral, eles podem ser seguros quando bem indicados e executados por profissionais treinados. Mas “em geral” não significa “sem risco”.

Eventos adversos leves, como edema, hematomas e reações locais, podem ocorrer. Eventos graves são raros, mas existem: oclusão vascular, necrose, complicações oculares e necessidade de tratamento médico imediato. Revisões sistemáticas mostram que a maioria dos eventos é transitória, mas complicações severas, embora incomuns, exigem preparo técnico e manejo adequado.

O problema do excesso

O preenchimento piora quando deixa de respeitar anatomia e passa a perseguir volume. Isso pode acontecer por repetição de procedimentos, tentativa de copiar padrões de redes sociais ou correção de queixas que não eram, de fato, falta de volume.

O excesso pode produzir aparência pesada, rosto arredondado demais, projeções artificiais, perda de delicadeza nos movimentos e desproporção entre regiões. Em áreas como olheiras e região periocular, a literatura descreve risco de migração, efeito Tyndall, sobrecorreção e aparência dismórfica, com possibilidade de manejo com hialuronidase quando se trata de ácido hialurônico.

Preencher o problema errado

Nem toda sombra é falta de volume. Nem toda flacidez melhora com preenchimento. Nem todo sulco deve desaparecer. Às vezes o incômodo vem de qualidade de pele, estrutura óssea, perda de elasticidade, retenção, contração muscular, sono, envelhecimento global ou expectativa irreal.

Quando se preenche uma queixa mal interpretada, o rosto pode ganhar volume sem ganhar harmonia. O paciente sente que “fez algo”, mas não necessariamente ficou melhor.

Áreas de risco exigem prudência

Complicações vasculares após preenchimento facial são incomuns, mas potencialmente graves. Revisão e meta-análise de casos publicados mostrou que eventos vasculares podem causar necrose, perda visual e até eventos neurológicos. Complicações oculares após injeções perioculares ou em regiões de risco também foram descritas em revisão sistemática.

Isso não significa que todo preenchimento seja perigoso. Significa que banalizar o procedimento é inadequado. Procedimento minimamente invasivo não é procedimento sem risco.

Expectativa também faz parte da indicação

Um preenchimento pode ser tecnicamente correto e ainda assim ser uma má decisão se a expectativa do paciente for incompatível com a realidade. Se o objetivo for “mudar completamente o rosto”, “ficar igual a outra pessoa” ou corrigir sofrimento emocional profundo por uma característica mínima, a avaliação precisa ser mais cuidadosa.

A literatura sobre transtorno dismórfico corporal em estética mostra prevalência relevante em ambientes de cirurgia plástica e procedimentos estéticos, além de piores desfechos de satisfação em muitos casos.

Em resumo

Preenchimento facial melhora quando existe indicação. Piora quando vira impulso, moda ou tentativa de resolver com volume aquilo que exige diagnóstico. Em estética responsável, a pergunta decisiva não é “dá para fazer?”. É “deve ser feito?”.

Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica individualizada.

Fontes descritas

1. Kyriazidis I et al. Adverse Events Associated with Hyaluronic Acid Filler Injection for Non-surgical Facial Aesthetics. Aesthetic Plastic Surgery, 2024. PMID: 37563436. Revisão sistemática de estudos randomizados sobre eventos adversos de preenchedores de ácido hialurônico.

2. Quach B, Clevens RA. Complications of Injectables. Atlas of the Oral and Maxillofacial Surgery Clinics of North America, 2024. PMID: 38307636. Revisão clínica sobre complicações de neuromoduladores e preenchedores.

3. Sito G, Manzoni V, Sommariva R. Vascular Complications after Facial Filler Injection: A Literature Review and Meta-analysis. Journal of Clinical and Aesthetic Dermatology, 2019. PMID: 31360292. Revisão/meta-análise de complicações vasculares publicadas após preenchimento facial.

4. Mortada H et al. Ocular Complications Post-Cosmetic Periocular Hyaluronic Acid Injections: A Systematic Review. Aesthetic Plastic Surgery, 2022. PMID: 35091771. Revisão sistemática sobre complicações oculares após injeções cosméticas com ácido hialurônico.

5. Wang Y, Massry G, Holds JB. Complications of Periocular Dermal Fillers. Facial Plastic Surgery Clinics of North America, 2021. PMID: 33906766. Revisão sobre complicações perioculares, migração, Tyndall e sobrecorreção.

6. Pereira IN et al. Evidence-based review: Screening body dysmorphic disorder in aesthetic clinical settings. Journal of Cosmetic Dermatology, 2023. PMID: 36847707.

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